O homem se caracteriza por ser o animal que reflete, busca explicar suas origens e fins, tendo consciência da morte e anseia encontrar o sentido da vida.
É dessa maneira, um ser que tem a espiritualidade como dimensão correspondente à abertura da consciência ao significado e à totalidade da vida, possibilitando uma recapitulação qualitativa de seu processo vital, tendo a fé como uma característica regular da sua constituição mental e emocional, bem como uma fonte de força positiva para a vida.
Tem havido um grande número de sugestões, desde o Iluminismo, sobre o porquê das pessoas possuírem crenças espirituais ou relatá-las.
Uma das alusões mais duradouras é que crenças espirituais e religiosas persistem por promoverem a coesão social e reduzirem o medo da morte.
A espiritualidade pode ser vista como um sistema de crenças que enfoca elementos intangíveis, transmitindo vitalidade e significado a eventos da vida, um sentido de conexão com algo maior que si próprio, que pode ou não incluir uma participação religiosa formal.
Uma qualidade que busca inspiração, reverência, temor, significado e propósito, até para aqueles que acreditam em algo que não seja um deus.
A dimensão espiritual tenta estar em harmonia com o universo, esforça-se por respostas sobre o infinito e procura entrar em foco quando o indivíduo enfrenta o estresse emocional, a doença física ou a morte.
Essa espiritualidade pode mobilizar energias e iniciativas extremamente positivas, com potencial ilimitado para melhorar a qualidade de vida.
Pessoas religiosas são fisicamente mais saudáveis e têm estilos de vida mais salutares.
Existe uma associação entre espiritualidade e saúde que provavelmente é válida e, possivelmente, causal.
Convém, porém, definir nesse cenário que a religiosidade e a espiritualidade não são claramente descritas como sinônimos, embora sejam intimamente relacionadas.
Ambas lidam com o divino e podem envolver práticas destinadas a aumentar o sentimento de conexão com um poder maior, mas também possuem importantes diferenças.
No questionário denominado SpREUK (sigla alemã para Atitudes Espirituais e Religiosas para Lidar com a Doença), a religiosidade envolve sistematização de culto e doutrina compartilhados por um grupo, sendo mais pública e formal, podendo ainda ser considerada como um dos caminhos para uma vida espiritualizada.
Muitas pessoas acham escopo nas crenças religiosas para poderem entender o sofrimento, o significado e o propósito da vida, bem como para ajudá-las a ter garra para lutar contra as incertezas da existência.
A relevância da religião está inserida até na palavra religion (religião).
O “lig” dessa palavra tem derivação na mesma raiz latina que significa conectar, amarrar ou ligar.
E parte do que as religiões fazem é mostrar como as pessoas estão ligadas à família, à comunidade, ao ambiente e aos elementos transcendentes das experiências de cada um; fornecendo, ainda, um conjunto de conceitos e valores que dizem como os indivíduos são e como devem se esforçar para serem; e também ajudam a compreender os elementos morais da vida.
Já a espiritualidade relaciona-se com uma busca do sagrado, questões sobre significado e propósito da vida e com a crença em aspectos espiritualistas para justificar a existência e seu significado, estando mais relacionada a um aspecto intimista e independente de qualquer instituição formal e envolve emoções positivas como esperança, fé e amor.
Deliberar e definir espiritualidade são tarefas complexas, pois não envolve uma experiência espiritual específica nem uma qualidade espiritual única ou própria, cuja subjetividade, também, está relacionada à vivência interior.
A saúde e a doença é um processo mental e físico, uma unidade dinâmica psicossomática, pois o corpo só por si é um cadáver; apenas, sendo vivo se expressado por um padrão de inteligência e de informação.
Portanto é a pessoa como um todo que adoece. Daí a necessidade de uma visão holística da natureza para explicar a multidimensionalidade da vida e da saúde e a necessidade de buscar na tradição de outros conhecimentos, além da medicina em si, a compreensão da vida plenamente.
A importância de reconhecer o lado religioso/espiritual da vida reside nos seguintes fatos: pessoas tendem a basear as decisões, sobre questões específicas relativas à moral e que são relevantes para saúde, de acordo com suas opiniões religiosas; as religiões fornecem um poderoso antídoto para o individualismo exacerbado pelo estilo de vida americano, por promover o relacionamento com outras pessoas e com Deus e, também, por municiar os crentes com conceitos, valores e rituais, que funcionam como um poderoso mecanismo de enfrentamento das adversidades.
Pode-se afirmar que, definitivamente, a religiosidade/espiritualidade entrou no rol de pesquisas sobre fatores psicossociais na saúde, embora a saúde seja vista, ainda, dominantemente, como um modelo biomédico com raízes reducionistas (no qual o reducionismo diz respeito à diminuição da complexidade da vida a mero fenômeno biológico) e materialistas que rejeita qualquer modelo que não possa ser objetivamente mensurado, como, por exemplo, as dimensões sociais e espirituais da saúde.
Há que se considerarem as limitações éticas, de método e a dificuldade de mensurar e quantificar o impacto das experiências religiosas e espirituais pelos procedimentos científicos tradicionais.
Glossário
A escala SpREUK (acrônimo em alemão para Spiritualität und Religiösität in Bezug auf den Umgang mit Erkrankungen) é um instrumento psicométrico desenvolvido pelo pesquisador Arndt Büssing para avaliar as atitudes espirituais e religiosas de pessoas que se tornaram pacientes no enfrentamento e manejo de doenças crônicas ou graves.
(Fonte: Wikipédia)
Francisco Braga é Psicanalista, Especialista em Neuroterapia com Hipnose Clínica;
Neuropsicanalista, Especialista em Saúde Mental com Aprimoramento em CAPS/SUS e Novos Direcionamentos em Saúde Mental;
Transtorno do Espectro do Autismo; Psicopatologia e Psicofarmacologia e Emergências Psiquiátricas.
Membro Associado à Associação Brasileira de Saúde Mental - ABRASME